Metamorfoses da Alma

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Para Elizabeth Berardo

Hoje acordei cigarra. E apesar da frustração, me senti aliviada. Antes acordar cigarra do que barata, como Kafka.

Mas puxa vida. Depois de tanto tempo em estado de crisálida, eu bem que podia ter despertado uma borboleta. É tão mais poético e chique. Mas não adianta. O que é da nossa natureza é nosso e não dá para devolver simplesmente porque a gente não gostou muito. Acordar cigarra hoje me fez entender um monte de coisas. Uma delas inclusive é que eu sou uma explosão incontrolável de metáforas e que a minha única salvação é escrever para tentar solucionar essas transposições que a minha cabeça faz sozinha sem me pedir licença.

Pois é. Essa coisa de casulo é coisa séria. Estou há mais de um ano sem escrever porque não tinha tempo para isso. Dividida entre o trabalho da escola, a faculdade e o trabalho com as meninas, passei as últimas quatro estações como uma formiga workholic – louca e obsessiva por cumprir metas e dar conta da vida. Mas a alma… essa estava recolhida por tempo indeterminado.

Mas na semana passada uma coisa mágica aconteceu. Um fato pequeno, singelo. Mas que serviu para mover as camadas tectônicas da minha alma. Uma amiga querida me mandou uma mensagem perguntando pelos meus textos. Dizendo que sentia saudade do que eu escrevia. Pronto. Eu não me dei conta na hora, mas tudo que aconteceu em seguida deve ter sido em consequência a esse pequeno e definitivo abalo sísmico que essa saudade me causou.

Tudo começou com o rompimento do casulo. E como todas as minhas metamorfoses são um exagero, passei o dia seguinte à mensagem, literalmente em trabalho de parto. Acordei às seis horas da manhã com uma dor paralisante no corpo e uma febre de 39°. Na mesma hora pensei: “Meu Deus! Isso só pode ser dengue!” Resultado: fui parar no hospital para fazer exames e descobrir o que tinha. Depois de uma tarde de agonia, o diagnóstico foi surpreendente. Aquilo tudo que sentia era uma reação violenta aos antibióticos que estava tomando por causa de uma infecção urinária. Claro. Ser uma formiga workholic tem seu preço, né gente? Ninguém trabalha sem parar sem ter sérios efeitos colaterais. Mas enfim. Aquilo tudo era só uma preparação para o que viria mais tarde, quando eu finalmente deitei na cama para descansar.

As coisas na vida não acontecem à toa. Até mesmo as mais violentas. Naquela noite tive uma crise de pânico como nunca tinha tido. Minha terapeuta diz que as crises de pânico são a culminância de um processo de acúmulo de ansiedade. Para mim, é como enfartar o miocárdio da alma. Entupir as artérias anímicas. Perder o controle só para entender que às vezes esse é o único recurso que a alma tem para ser ouvida. É um processo duro e apavorante. Só quem já teve é que sabe o que significa.

Umas gotas de Rivotril me apagaram na hora – esses remedinhos são geniais para calar a nossa dor – mas no dia seguinte quando acordei, alguma coisa tinha mudado em mim. O cenário da nossa vida muitas vezes não tem como mudar. O lado de fora, a configuração do nosso cotidiano tem raízes profundas porque assim foi construído por nós. Mas o lado de dentro a gente pode mudar. E é essa mudança que vai possibilitar a gente fazer contato com o que de fato for o chamado da nossa alma. Essa coisa da gente ficar repetindo que não tem tempo para as coisas importantes é um processo desgraçado de autossabotagem.  Se for da minha natureza escrever para entender o mundo, ou eu encontro uma forma de fazer isso, ou minha alma vai continuar manipulando forças sobrenaturais para encontrar um jeito de se expressar.

Monteiro Lobato reconta a história da “Cigarra e a Formiga” de um jeito poético, generoso e muito libertador. No final, a moral da história não recai sobre a cigarra do jeito moralista que La Fontaine contou. Não, na versão dele a cigarra não morre no inverno por simplesmente não ter trabalhado sem parar como a formiga no verão. Ela é convidada pela formiga a entrar em sua casa e desfrutar de sua companhia, porque de alguma forma, trabalhou num ofício tão importante como no dela:

“Pois entre, amiguinha! Nunca poderemos esquecer as boas horas que sua cantoria nos proporcionou. Aquele chiado nos distraía e aliviava o trabalho. Dizíamos sempre: que felicidade ter como vizinha tão gentil cantora! Entre, amiga, que aqui terá cama e mesa durante todo o mau tempo.”

Ah! Hoje acordei cigarra. E essa transmutação me despertou por inteiro. Por dentro, por fora. Pelo meio, adentro. Essa crônica é para você Beth Berardo, que sente saudade dos meus textos. Sua saudade me fez romper o casulo. Agora vou poder de novo levar minha cantoria pelo mundo, através da minha arte, sem me sentir culpada por não querer mais trabalhar como uma formiga workholic, e sim como uma cigarra feliz. Graças a você. E eu te agradeço profundamente por isso. Um beijo, querida.

Das partes boas da vida

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De todas as graças que sou abençoada nessa minha vida, uma das mais sutis e maravilhosas é ter a oportunidade de ver minhas filhas acordando todos os dias.

Minhas manhãs são simples e rotineiras. Abro os olhos e a primeira coisa que penso é na sensação estranha de me sentir viva mais um dia. Silenciosamente agradeço por isso e saio espreguiçando meu corpo como se precisasse desesperadamente dizer para ele que o tempo do quentinho da cama acabou. Me levanto, caminho lentamente para o banheiro, faço xixi, escovo os dentes. Depois sigo para cozinha para tomar meu religioso copinho d´água para ver se consigo me acordar por dentro.

Há qualquer coisa de divino no tempo da manhã. Uma luz diferente no horizonte, um frescor de orvalho deixado pela noite, um tom celestial no canto dos passarinhos. Não sei bem o que é. Mas acordar de manhã é como renascer sem ter morrido. Como voltar de uma jornada profunda sem ter partido. É como despertar de sonhos vividos e ter a certeza de que não estávamos lá, mesmo tendo certeza de que estávamos.

Enfim.

Ainda na cozinha busco os ingredientes para fazer a poção mágica que desperta minhas bonecas há mais de dez anos: o nutritivo e achocolatado Toddy de todas as manhãs. Preparo a bebida, encho os copinhos do leite morno e doce que elas tanto amam e sigo ansiosa para o quarto delas.

Abro a porta. O quarto está quieto. Geralmente Clara está coberta até a ponta do nariz com o edredom. Catarina está virada do outro lado da cama, toda torta e descoberta. Olho para o rosto delas e percebo a profundidade do sono em que estão. Há um ronquinho no ar. O som de uma respiração que vem lá de dentro do corpinho de cada uma. Por onde andarão suas alminhas? Com o que será que estão sonhando? Me ajoelho perto das duas e começo o processo do despertar cheirando o cangote de cada uma. Cheirinho de Deus!  Tem a mistura do cheiro do xampu, com o perfume do amaciante que está na fronha e o cheirinho da pele delas que mais me parece com um doce de confeitaria.

Da cafungada no cangote, passo para o beijinho de leite – beijo inventado por elas – que é um beijo miudinho e sem som, quase imperceptível a olho humano. Esse beijo dou em todas as partes do corpo que estiverem descobertas… rosto, braços, pernas. Mas quando passo a beijar por cima do pijama, o beijo já pode estalar. Aliás, deve. Quanto mais alto, mais chances tenho de fazê-las despertar. É com os beijos estalados que as coisinhas começam a chegar.

O primeiro indício da chegada é o desejo de espreguiçar. Nesse momento me afasto para assistir a melhor parte do show, quando elas deixam de ser meninas e passam a ser uns filhotinhos, uns bichinhos desses que a gente morre de amor no zoológico quando começam a se espreguiçar. Elas fazem caretas. Soltam gritinhos. Grunhidos. Uma coisa muito deliciosa. Vontade que dá é de sair mordendo.

Os “bons-dias” geralmente saem da boca antes mesmo dos olhos se abrirem. Cada uma traz seu amor e sua doçura na forma com que me reconhecem.

“Bom dia, Mamisquilis” diz Clara. “Bom dia, Mamita” diz Catarina.

E emocionada, corro para abraçá-las como se não as visse há muito, muito tempo e rapidamente me transformo no que elas mais gostam: um enorme puf-mamãe. Elas sobem e pulam em cima de mim… e nos embolamos como se fossemos um corpo só. Como são lindos os olhinhos inchados e remelentos, como são cheirosas as boquinhas com bafo de tigre, como são perfeitos os cabelos descabelados, como são quentinhos os abraços com braços tão fortes.

Se eu pudesse resumir as partes boas que vivo no cotidiano da minha vida, estas manhãs certamente estariam na lista das mais queridas. É uma benção imaginar que num mesmo dia posso renascer e ver renascer aquilo de mais precioso que coloquei no mundo. Que maravilhoso dia para se ter alegria!

Quando acontece

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Dizem que a vida não é o que te acontece e sim a forma com que você lida com tudo aquilo que acontece. Pode ser. Eu estou sempre à procura de um significado maior para todas as coisas que me acontecem. Principalmente quando o que acontece, parece que não era para acontecer.

Sexta-feira eu tinha acabado de deixar as meninas na escola e voltava para casa. Uma da tarde. Dia ensolarado.  Vinha pela Estrada Caetano Monteiro – na pista da esquerda – quando um carro vermelho que estava na pista da direita, resolve subitamente pegar o retorno na pista…  da esquerda! Não deu tempo de muita coisa. Só fritar os pneus no asfalto e esperar meu carro bater com toda a força na lateral do carro vermelho.

Acidentes de carro são acontecimentos que a gente nunca esquece. É claro que existem aqueles menores que só servem para dar dor de cabeça para o sujeito. E outros que se transformam em tragédia e que mudam a vida das pessoas para sempre. Mas em quase todos a gente vive aquilo de passar a vida a limpo em menos de cinco segundos. É surpreendente a capacidade que a nossa mente tem de editar tudo aquilo que importa e é essencial para o nosso coração.

Depois da batida, o senhor que dirigia o carro saiu de dentro do veículo nervosíssimo, xingando e balançando os braços freneticamente. Eu, subitamente descolada da situação, observei aquele homem saindo de dentro daquela cápsula de ferro e não consegui deixar de pensar no quão esquisitos somos nós, bichos pilotando máquinas. Quando voltei à cena, me dei conta de que o alvo do xingamento era eu. Nessa hora o sangue ferveu e eu consegui reagir. Um pouco. “Como é que é meu senhor? O senhor tá maluco? O senhor viu o que o senhor fez?”

Em menos de dez segundos tudo se resolveu. Ele olhou o próprio carro (que não estava tão amassado) olhou o meu (que estava completamente amassado) entrou no carro de volta e saiu cantando pneu para um lugar que até agora eu não entendi para onde foi. E eu, catatônica estava catatônica continuei, até que alguém – que decerto tinha testemunhado a cena – me despertou gritando ao meu lado: “Velhinho desgraçado, hein! Anotou a placa?”

Placa, que placa?

Nem sempre o tempo do mundo é o tempo da gente. Sinceramente, a pessoa precisa ser feito de um outro material que não é o meu, para ter a frieza e foco de anotar uma placa de carro depois que acabou de bater. A única coisa na qual eu conseguia pensar naquele momento era: “mas como assim eu bati de carro? que cena é essa que não estava no meu roteiro? alguém mudou o script da novela de última hora e não me avisou? hein?

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quando de repente me invadiu uma sensação absoluta de gratidão por estar viva, por estar inteira, sem nenhum arranhão e pensando que graças a Deus o velhinho também estava inteiro e que nada de mais grave tinha acontecido para nós dois. Foi aí que eu desandei a chorar e a chorar, aquele choro de nervoso, alívio, gratidão.

Consegui dirigir de volta para casa, o carro está amassado mas funciona. Estou fazendo alguns orçamentos, mas nada que eu não possa tentar parcelar em algumas vezes. Meu pai prometeu ajudar (oba!). O pessoal do condomínio todo me interfonou preocupado. Descobri que sou um bocado querida lá no bosque onde moro. Muita gente oferecendo ajuda. O pescoço ainda dói. A família veio correndo cuidar de mim. Voltei a tomar passiflorine e descobri que não há melhor calmante do que o que a natureza nos dá. Acendi uma velinha para o meu anjo da guarda que, apesar de não ter conseguido evitar, cuidou muito bem de mim. Enfim, agradeci muito a Deus que as meninas não estivessem comigo e que tudo tenha ocorrido da forma mais branda possível. Sem querer ser Polyana – já sendo – tudo podia ter sido muito pior.

Mas de tudo, de tudo mesmo que aconteceu, o que mais me emocionou foi descobrir mais uma vez, quem são essas filhas que eu coloquei no mundo: no mesmo dia do acidente, voltei no carro no fim da tarde para pegar umas bolsas que estavam no porta mala. Estava fechando o carro quando me deparei com o capô do Billy cheio, mas assim… coberto de flores. Voltei para casa em choque com a cena e perguntei para as meninas se elas sabiam quem tinha feito aquilo.

– Ué, foi a gente mãe – respondeu Catarina. Eu e a imã. O Billy vai pro conserto né. Mas antes ele precisava de um carinho…

Morri de amor.

A vida definitivamente não é o que acontece, mas o jeito que a gente vê tudo aquilo que acontece.

A doença do labirinto

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Há muito tempo entendi que a estrada da vida não é uma linha reta e sim uma espiral sagrada aonde vamos percorrendo a existência em profundo desejo de ascendência. O que eu não sabia é que em determinados momentos a espiral dá lugar a labirintos e que só saímos dele se entendermos em profundidade o seu significado.

Há três semanas cheguei à emergência do hospital passando muito mal. Tonta, enjoada e com dores de cabeça, o diagnóstico da médica foi certeiro: labirintite. Dizem que a labirintite é uma inflamação no ouvido. Mas isso não é verdade. Labirintite é uma inflamação na alma. De origem exclusivamente emocional, a doença do labirinto é coisa séria e dependendo do Teseu, pode ser tão trágica quanto as piores tragédias da mitologia grega. No meu labirinto não há somente um, mas diversos Minotauros soltos querendo me pegar e o pior, sem ter nem meio metro de fio de Ariadne para me ajudar.

Dizem que o labirinto é, essencialmente, um entrecruzamento de caminhos, dos quais alguns não têm saída e outros só nos levam a alguns impasses. Não há quem me faça desassociar a imagem do labirinto à minha labirintite. Perder o chão é como perder o caminho. Estar perdida dentro de mim mesma é como chegar a uma determinada parte da jornada e perceber que algo muito importante está errado.

No livro “A Doença como Símbolo” a definição de labirintite é devastadora: a doença vem como uma alerta do corpo à alma para que ela pare de se enganar. Como se de repente o indivíduo precisasse voltar a olhar de frente para tudo aquilo que construiu e rever os valores e crenças na qual baseou sua vida. Pancada não?

Debruçada sobre o significado do símbolo descobri que o labirinto foi construído pela primeira vez na intenção de ser um inteligente sistema de defesa. E que há dois tipos de labirintos: aqueles que tem a intenção de confundir os viajantes – e não tem saída – e aqueles que, como numa viagem iniciatória, não tem a intenção de aprisionar o viajante e sim transformá-lo através da experimentação – já que percorrer é mais importante do que sair – e geralmente guarda em seu centro um precioso e sagrado tesouro.

É muita riqueza num símbolo só! Mas tomar consciência da verdade não me livra da labirintite, nem tampouco do labirinto no qual estou perdida. Tenho tomado uma quantidade absurda de remédios alopáticos, florais de emergência, trabalhado minhas questões na terapia. Diminui café, mate, chocolate. Durmo sentada e não abaixo a cabeça para mais nada. Tenho estudado sobre o assunto. Tenho escrito – à mão já que fui proibida de ficar no computador – e meditado. A única coisa que não fiz que a médica mandou fazer foi caminhar. Ah, eu acho tão chato caminhar. Será que isso significa alguma coisa?

Tudo significa algo na simbologia da existência humana. Mas a verdade é que não consigo ficar boa. Não consigo me sentir bem de novo. Não consigo achar uma saída nem achar nada de precioso no centro de coisa alguma. Na vertical já voltei a ter alguma controle. Sigo trabalhando, dirigindo, cuidando das meninas. Mas se abaixo, levanto ou me deito depressa, o mundo continua vibrando na sensação estranha de ter tomado um porre sem ter ingerido uma única gota de álcool.

Os espíritas tem uma explicação para o meu caso. Vários já vieram falar comigo. E o diagnóstico é sempre o mesmo: mediunidade não trabalhada. Dizem que minha tontura e mal estar nada mais é do que um chamado sério da alma para a necessidade de um desenvolvimento espiritual.

Pode ser. Não estou fechada para nada. Já estou em busca de mim mesma, buscar um centro espírita vai ser moleza. Mas que fique registrado no livro cósmico da vida: se a intenção é que eu expanda minha consciência ajudando ao próximo, de uma coisa tenho certeza; isso eu já venho fazendo ao longo dos meus quarenta anos. Tenho um respeito profundo pelo mundo e pelas pessoas. Sou amorosa e isso se multiplica a partir do meu coração em todas as minhas ações cotidianas. Descobri que posso curar alguns espíritos com aquilo que escrevo e isso tudo, de alguma forma, já é trabalhar minha mediunidade, não?

Mas se preciso fazer mais, farei. Se preciso ir mais fundo, eu irei.

Diz o “Dicionário de Símbolos” de Jean Chevalier:

“O labirinto conduz o homem ao interior de si mesmo, a uma espécie de santuário escondido, no qual reside o mais misterioso da pessoa humana. A transformação do eu, que se opera no centro do labirinto, e que se afirmará à luz do dia no fim da viagem de retorno, no término dessa passagem das trevas à luz, marcará a vitória do espiritual ao material e, ao mesmo, tempo, do eterno sobre o perecível, da inteligência sobre o instinto, do saber sobre a violência cega.”

Que o meu saber possa conter essa violência que tenho feito sofrer meu corpo. Que o meu amor vença todos os medos que surgirem em forma de Minotauros. E que a minha fé me faça encontrar a Ariadne que habita em mim e ela possa me alertar, através de sua coragem e inteligência, que não há verdade que doa mais do que a ilusão daquilo que construímos nos labirintos de nós mesmos.

Para Bia Albernaz

Adeus, Zizi

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Foto de Gisele Magalhães

Vó,

Se eu agora fechar os olhos posso me transportar para um fim de tarde de chuva na sua casa em Teresópolis, onde eu pequenininha deitava na rede da varanda e ouvia por horas e horas a fio você tocar seu amado piano. Me lembro como se fosse hoje a sensação de plenitude que eu sentia naqueles momentos mágicos ao teu lado. Me lembro do som da chuva se misturando às notas melódicas das suas canções, me lembro do cheiro da terra que brotava daquela imensidão verde de mato molhado, me lembro da emoção que me causava aquele conjunto perfeito de impressões do mundo… onde tudo, tudo fazia sentido e eu me sentia tão perto de Deus.

Minha avó querida,

Você ontem conseguiu partir, depois de longos nove meses de sofrimento no hospital. Finalmente pode iniciar sua jornada pelo caminho azul, como dizemos no xamanismo. Depois de noventa e três anos de luta pelo caminho vermelho – o caminho da vida – ontem você conseguiu finalmente fazer sua passagem e atravessar para o outro lado do rio. Estou feliz por você, querida. Estamos todos aliviados por saber que não vai mais precisar sofrer.

Hoje estou aqui mergulhada em memórias e não consigo parar de pensar na saudade que sinto de você, Negucha. Saudade que sinto há mais de vinte anos, vó. Mais de vinte anos. Nós morremos uma para a outra no dia que olhou nos meus olhos e não me reconheceu mais. Há mais de vinte anos que estamos todos te perdendo um pouco a cada dia. Te perdendo para essa doença injusta e ingrata. Te perdendo na névoa das tuas próprias lembranças. Não há nada mais doloroso do que perder uma pessoa em vida. Foram anos duros. De muito sofrimento, provações, perdas e saudade, muita saudade.

Mas hoje, hoje eu só conseguia lembrar de você e da sua elegância, do seu perfume, dos kaftans que usava com aqueles chinelinhos de salto. Você foi a pessoa mais elegante que já conheci, vó. Elegante e prafrentex. Me orgulhava em dizer para os amigos na escola que minha vó tinha se divorciado numa época que ninguém se divorciava e tinha sido o braço direito do advogado mais poderoso de São Paulo! Pensar que hoje ele é considerado o maior escritório de advocacia da América Latina e que vocês começaram juntos, na época da guerra, quando ele te contratou como datilógrafa aos dezoito anos de idade… A vida é estranha e maravilhosa, não é querida? Posso apostar de que foi ele que te recebeu no céu. Estou certa?

Perdi a conta da quantidade de vezes que fomos te visitar no Vale São Fernando, mamãe, Manô e eu, naquele possante Fiat 147 amarelo. Lembra disso? Eram finais de semana de muita comilança, filmes, sol na piscina no verão e histórias deliciosas no inverno, pertinho da lareira. A mesma que guardava pendurada as minhas preciosas meias de natal. Não havia nada mais extraordinário em dezembro do que descer as escadas correndo de manhã para ver que tipo de doces tinha deixado o Papai Noel na madrugada anterior.

Mas eu cresci e me tornei uma adolescente solitária e muitas vezes preferi passar o fim de semana com você do que com qualquer outra pessoa. Eu pegava o ônibus na rodoviária do Rio e você me buscava na rodoviária de Terê. Lembra? Eu entrava no carro, te dava um abraço apertado e seguíamos caladas os longos quilômetros que separavam a cidade do Vale. Nós nos entediamos em silêncio. Nos amávamos em silêncio. Você me ensinou tantas coisas sobre a vida. Sobre música, sobre arte, sobre a solidão.

Hoje passei o dia contigo, vó. Celebrando aqui dentro da minha alma todos os momentos maravilhosos que vivemos juntas. E o que fica é um enorme sentimento de gratidão por ter podido durante alguns anos da minha existência, partilhar contigo, a tua luminosa existência.

Que minhas palavras possam voar com o vento e chegar até o céu. Onde quer que você esteja tenha certeza do quanto foi amada.

E quando for o dia da minha partida, por favor Zizi, venha me buscar.

Com todo o amor,
para sempre
da sua neta
Tati

 

 

O que é que a segunda tem?

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Na espiral sagrada da vida, as segundas-feiras definitivamente são a parte mais chata e desagradável do nosso lindo processo de ascendência espiritual.

E por mais que eu tente combater com força e sabedoria os pensamentos clichês que de vez em quando me apertam o pescocinho, a tal da segunda-feira não me passa na goela.

Não consigo não sentir mau humor. Não consigo não lembrar do Garfield. Não consigo deixar de sentir a vida como se ela tivesse voltado à estaca zero. Não consigo deixar de sentir um gostinho de ressaca na boca e uma preguiça colossal que me dão todos os recomeços.

A vida é um atropelo. Tá todo mundo careca de saber disso. Mas conforme a semana vai passando, a gente pega no tranco. Volta a mergulhar no embalo frenético dos compromissos e dança bem conforme a música vai tocando.

Mas segunda-feira a gente é obrigado moralmente a sair da inércia. Obrigado a tirar forças das entranhas para passar do ponto morto para primeira, sem reclamar. É o único dia que a gente tem para passar a limpo a listinha de pendências e olhar com desânimo tudo aquilo que não foi ticado. E entender que tudo que não deu tempo de fazer na semana passada, nessa vai ter que dar.

Deus é testemunha em como eu passo a vida tentando superar minhas dificuldades existenciais. Mas não dá, segunda-feira não dá. Não tenho paciência para nada na segunda-feira. É um dia irritante. Enfadonho. Um dia excessivamente real e concreto. Um dia que a gente se dá conta da própria vida e de tudo aquilo que ainda não fez. Ainda não conquistou, ainda não limpou, ainda não entregou, ainda não marcou.

Claro que a segunda já vem carregada do peso difícil da deprê de domingo, mas mesmo assim é um dia esquisito. Um dia que merecia silêncio. Meditação. Pausa. “A vida necessita de pausas” já dizia Drummond. Segunda-feira deveria ser instituída como o dia oficial da pausa.  Um dia que fosse feito única e exclusivamente para gente se limpar, se zerar. Se voltar para dentro para então pensar em recomeçar qualquer coisa. E tomar bastante água mineral, chá verde e missô, para que todos os excessos do final de semana que estacionaram no fígado – físicos e emocionais  – pudessem ser filtrados e processados com calma, como ensina a milenar (e genial) medicina chinesa.

Eu sei que em todo recomeço, mora a esperança. E na esperança mora a nossa força de transformação. Mas na boa, as segundas-feiras tem um problema qualquer de configuração. Não há santo que me faça olhá-las de forma diferente. Nem com todo o meu tradicional positivismo, não sei mesmo se um dia eu vou ser capaz de encontrar um jeito poético e sábio de lidar melhor com esses diazinhos infernais. Será que o leitor tem alguma sugestão?

Ainda bem que hoje é quarta-feira. Até semana que vem!

Férias formidáveis

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Arte de Norman Rockwell

Férias é um período mesmo formidável. As crianças passam metade do tempo se divertindo, metade entediadas e as mães passam quase 100% do tempo querendo cortar os pulsos.

Para muita gente nesse mundo, férias é sinônimo de alegria e descanso. Dias deliciosos de repouso, pausa no trabalho, período sem compromisso. Viagens gostosas com a família para um hotel fazenda ou um resort daqueles de revista de viagem.

Não é o meu caso.

Férias no meu dicionário quer dizer: desespero. Um desafio hercúleo onde todas as minhas qualidades são colocadas à prova e todos os meus defeitos são grifados com marcador de texto fosforescente. Cara, eu sou uma pessoa paciente. Sou criativa. Tenho certeza de que sou uma mãe divertida. Mas sem dinheiro, sem empregada e sem ajuda, as férias tem se transformado num período de crises e superações. Vivo a beira de um ataque de nervos. Acordo todos os dias de manhã e me faço sempre a mesma pergunta – parodiando Pink e o Cérebro:

– Tati, o que você vai fazer hoje?
– O que faço todos os dias: tentar divertir minhas filhas.

Claro que as férias de inverno são mais difíceis que as de verão. Mesmo que intermináveis, as férias de dezembro, janeiro e fevereiro tem um poder de transmutação: o calor. Quando a temperatura esquenta, a galerinha vai lá para fora e qualquer programa aquático diverte. Por horas. Mangueira, banho de bacia, piscina, praia! No verão as crianças viram peixe e não se importam com absolutamente nada. Mas no inverno… no inverno a coisa complica. Todo mundo quer ficar entocado em casa, comendo tudo o tempo todo, jogando videogame ou vendo filme. Tudo lindo.  Até bater o tédio. Depois do terceiro filme e da 12ª bacia de pipoca, elas começam a dar curto circuito.

Clara até tenta. Fez uma listinha genial de ideias mirabolantes de coisas para fazer numas férias sem dinheiro, até mesmo a realização de um documentário sobre isso. A listinha tinha de tudo: criar um mapa de tesouros e depois ir atrás deles, vender brigadeiros (sendo que a mamãe faz e enrola claro), fazer um show no condomínio, fazer piquenique no topo do morro, montar uma barraca de lençol e fingir que está acampando, organizar uma festa a fantasia. Mas a melhor de todas foi A Cápsula do Tempo. Ela teve a ideia de produzir uma caixa onde colocaria objetos da nossa época (!) e cartas para gente guardar na caixa e só abrir daqui a 20 anos. Piramos. Ela e Catarina já fizeram as delas. Só falta a minha. Já comecei a carta umas três vezes, mas estou sem saber o que quero dizer a mim mesma quando estiver com sessenta anos. Loucura, gente. Coisa de Amelie Poulain! A questão agora é saber onde vamos enterrar a relíquia.

Não sei, mas nas férias todo o trabalho da casa aumenta tanto… Tudo se multiplica feito Gremlins na água. Roupas sujas nos cestos, roupas limpas na corda, sujeira nos cantos da casa, pipocas embaixo do sofá, bonecas saindo pelas gavetas, papeizinhos de BIS brotando do rodapé, essa fome infinita por gulodices, vizinhos entrando pelas portas e janelas buscando diversão na casa da Tia Tati. Ufa. Faço quilos e quilos de feijão mas não dou conta. Fui ao supermercado quase todos os dias, até que a moça do caixa me perguntou assustada com o aumento significativo de comida: mas a senhora não tinha duas filhas? É, mas os amiguinhos delas amam a nossa casa. Ai, ai.

Já fizemos de tudo. Argila, pintura, desenhos com giz, colagens. Peteca, bola, elástico. Jogos, mímicas, bolo de cenoura com brigadeiro. Cuca de banana. Spa. Tratamentos de beleza. Tardes de maquiagem. Filmes de aventura. Filmes de ação. Comédias. Já lemos livros, revistas, almanaques. Wii, Friv e todos os possíveis entretenimentos virtuais. Perdi a conta de quantas amiguinhas já vieram dormir. Já fiz e refiz um milhão de caminhas, um milhão de Toddys, um milhão de pães de queijo e as férias estão longe de terminar.

Tomara que nas férias de verão eu consiga relaxar um pouco. Me divertir mais do que me estressar. E entrar de verdade na onda das minhas peixinhas. Não quero ser uma mãe chata, quero ser uma mãe sereia!