Metamorfoses da Alma

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Para Elizabeth Berardo

Hoje acordei cigarra. E apesar da frustração, me senti aliviada. Antes acordar cigarra do que barata, como Kafka.

Mas puxa vida. Depois de tanto tempo em estado de crisálida, eu bem que podia ter despertado uma borboleta. É tão mais poético e chique. Mas não adianta. O que é da nossa natureza é nosso e não dá para devolver simplesmente porque a gente não gostou muito. Acordar cigarra hoje me fez entender um monte de coisas. Uma delas inclusive é que eu sou uma explosão incontrolável de metáforas e que a minha única salvação é escrever para tentar solucionar essas transposições que a minha cabeça faz sozinha sem me pedir licença.

Pois é. Essa coisa de casulo é coisa séria. Estou há mais de um ano sem escrever porque não tinha tempo para isso. Dividida entre o trabalho da escola, a faculdade e o trabalho com as meninas, passei as últimas quatro estações como uma formiga workholic – louca e obsessiva por cumprir metas e dar conta da vida. Mas a alma… essa estava recolhida por tempo indeterminado.

Mas na semana passada uma coisa mágica aconteceu. Um fato pequeno, singelo. Mas que serviu para mover as camadas tectônicas da minha alma. Uma amiga querida me mandou uma mensagem perguntando pelos meus textos. Dizendo que sentia saudade do que eu escrevia. Pronto. Eu não me dei conta na hora, mas tudo que aconteceu em seguida deve ter sido em consequência a esse pequeno e definitivo abalo sísmico que essa saudade me causou.

Tudo começou com o rompimento do casulo. E como todas as minhas metamorfoses são um exagero, passei o dia seguinte à mensagem, literalmente em trabalho de parto. Acordei às seis horas da manhã com uma dor paralisante no corpo e uma febre de 39°. Na mesma hora pensei: “Meu Deus! Isso só pode ser dengue!” Resultado: fui parar no hospital para fazer exames e descobrir o que tinha. Depois de uma tarde de agonia, o diagnóstico foi surpreendente. Aquilo tudo que sentia era uma reação violenta aos antibióticos que estava tomando por causa de uma infecção urinária. Claro. Ser uma formiga workholic tem seu preço, né gente? Ninguém trabalha sem parar sem ter sérios efeitos colaterais. Mas enfim. Aquilo tudo era só uma preparação para o que viria mais tarde, quando eu finalmente deitei na cama para descansar.

As coisas na vida não acontecem à toa. Até mesmo as mais violentas. Naquela noite tive uma crise de pânico como nunca tinha tido. Minha terapeuta diz que as crises de pânico são a culminância de um processo de acúmulo de ansiedade. Para mim, é como enfartar o miocárdio da alma. Entupir as artérias anímicas. Perder o controle só para entender que às vezes esse é o único recurso que a alma tem para ser ouvida. É um processo duro e apavorante. Só quem já teve é que sabe o que significa.

Umas gotas de Rivotril me apagaram na hora – esses remedinhos são geniais para calar a nossa dor – mas no dia seguinte quando acordei, alguma coisa tinha mudado em mim. O cenário da nossa vida muitas vezes não tem como mudar. O lado de fora, a configuração do nosso cotidiano tem raízes profundas porque assim foi construído por nós. Mas o lado de dentro a gente pode mudar. E é essa mudança que vai possibilitar a gente fazer contato com o que de fato for o chamado da nossa alma. Essa coisa da gente ficar repetindo que não tem tempo para as coisas importantes é um processo desgraçado de autossabotagem.  Se for da minha natureza escrever para entender o mundo, ou eu encontro uma forma de fazer isso, ou minha alma vai continuar manipulando forças sobrenaturais para encontrar um jeito de se expressar.

Monteiro Lobato reconta a história da “Cigarra e a Formiga” de um jeito poético, generoso e muito libertador. No final, a moral da história não recai sobre a cigarra do jeito moralista que La Fontaine contou. Não, na versão dele a cigarra não morre no inverno por simplesmente não ter trabalhado sem parar como a formiga no verão. Ela é convidada pela formiga a entrar em sua casa e desfrutar de sua companhia, porque de alguma forma, trabalhou num ofício tão importante como no dela:

“Pois entre, amiguinha! Nunca poderemos esquecer as boas horas que sua cantoria nos proporcionou. Aquele chiado nos distraía e aliviava o trabalho. Dizíamos sempre: que felicidade ter como vizinha tão gentil cantora! Entre, amiga, que aqui terá cama e mesa durante todo o mau tempo.”

Ah! Hoje acordei cigarra. E essa transmutação me despertou por inteiro. Por dentro, por fora. Pelo meio, adentro. Essa crônica é para você Beth Berardo, que sente saudade dos meus textos. Sua saudade me fez romper o casulo. Agora vou poder de novo levar minha cantoria pelo mundo, através da minha arte, sem me sentir culpada por não querer mais trabalhar como uma formiga workholic, e sim como uma cigarra feliz. Graças a você. E eu te agradeço profundamente por isso. Um beijo, querida.

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11 respostas em “Metamorfoses da Alma

  1. Mãe, estou muito orgulhosa de vc. Vc HÁ de escever mãe. É sua vida, sua alma! Faz parte de vc. Continue escrevendo lindamente e encantando todos. Eu te amo. Muito! Vc é a MELHOR MÃE DO M U N D O. Continue a construir sua alma, que está precisando de cuidados… Te amo, beijos de amor, Claruca ❤ :*

  2. “O que é da nossa natureza é nosso e não dá para devolver, simplesmente porque a gente não gostou muito”…
    “As coisas na vida não acontecem à toa. Até mesmo as mais violentas”…
    “Essa coisa da gente ficar repetindo que não tem tempo para as coisas importantes é um processo desgraçado de autossabotagem”…
    “Monteiro Lobato reconta a história da “Cigarra e a Formiga” de um jeito poético, generoso e muito libertador. No final, a moral da história não recai sobre a cigarra do jeito moralista que La Fontaine contou. Não, na versão dele a cigarra não morre no inverno por simplesmente não ter trabalhado sem parar como a formiga no verão. Ela é convidada pela formiga a entrar em sua casa e desfrutar de sua companhia, porque de alguma forma, trabalhou num ofício tão importante como no dela”…
    As maravilhas que um tempo no casulo, em contato com a alma, nos fazem apropriar.
    Beijos com sabor de alegria (pelo rompimento do casulo) e saudades (da sua cantoria e da sua arte),
    Beth

  3. Agradeço a Elizabeth por ter rompido seu silencio.
    Adoro ler seus textos.Entendo cada frase com minha Alma tb.Quem sabe agora que vai abrir mais tempo no seu tempo podemos nos encontrar para um grupo de Onde Habita minha Alma.Lembra?
    Parabéns ter coragem para retornar e obrigada por compartilhar seu talento.

  4. Lembra, querida, de quando fomos cigarra e formiga? Você já era a formiga naquela época! Muito bom para essa cigarra aqui poder entrar na sua casa e habitar a sua alma mais uma vez. Parabéns pelo texto. Saudades. Beijos
    Valéria Saeger

  5. Todo louvor às formigas e cigarras que habitam a sua alma desmedida! Adoro ver você trabalhando e cantando, cantando e trabalhando! O universo e eu agradecemos!!! Beijos com muito amor da sua cigarra-formiga-mãe

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